23
May

Linguagem visual brasileira?

Autor: ESAMC | Category: Comunicação e Moda
Porcelana Renda, Iemanjá e Maracatú, da Oxford. Design de superfície: Marcelo Rosembaun

Porcelana Renda, Iemanjá e Maracatú, da Oxford. Design de superfície: Marcelo Rosembaun

O que existe em comum entre as flores feitas com garrafa PET das feirinhas de artesanato, o letreiro da borracharia pintado pelo próprio borracheiro ou ainda um andor de santo em dia de procissão? Todos são produtos do design anônimo, signos da cultura do nosso país, mostras do repertório visual de um universo milagrosamente livre da influência e dos modismos globalizados, enraizados na memória de toda uma população. A evolução da globalização definitivamente nos trouxe uma enxurrada de produtos industrializados de referências visuais estrangeiras, criando um cenário repletos de produtos com os quais não nos identificamos.  Observa-se não só os processos produtivos que previlegiam a produção em larga escala mas também uma homogeinização das referências estéticas a fim de se atingir a quantidade necessária de mercados consumidores.  Ana Luiza Scorel, em seu ótimo livro O Efeito multiplicador do design, pondera sobre a necessidade da produção em larga escala do mundo globalizado: “Com efeito, se considerarmos que um dos pressupostos para a sustentação do mundo globalizado é a quantidade: quantidade de recursos finaceiros, quantidade de produtos, quantidade de usuários, quantidade de regiões a serem atingidas pelo comércio internacional e consequentemente , quantidade de trocas econômicas, vamos entender porque as formas artesanais de expressão deixam de ocupar um lugar estratégico”.

Na contra-mão deste processo, nota-se um interesse crescente por parte dos designers em buscar uma referência vernacular. É visível e crescente a curiosidade do designer sobre o seu entorno e a busca pela valorização dos elementos da cultura brasileira frente à massificação da linguagem globalizada do século vinte e um.

Viu-se recentemente, na 9ª Bienal de Design Gráfico da Associação dos Designers Gráficos do Brasil – ADG/Brasil, inserida entre as nove categorias do evento, uma categoria intitulada ‘Popular, Vernacular e Regional’, que procura contemplar projetos inspirados nesse universo. Fátima Finizola, curadora desta categoria da Bienal, ressalta que o design gráfico se inspira cada vez mais na cultura popular e cita o olhar atento do designer em captar a linguagem visual anônima das ruas. E ainda explica a diferença entre os termos popular, vernacular e regional: “o popular abrange o universo de produtos industriais e culturais consumidos ou gerados pela grande massa da população. Não descartando também aqueles hábitos que foram inicialmente impostos pela cultura dominante e mais tarde incorporados na cultura local.[...] A utilização do termo vernacular é empregada para definir aqueles artefatos autênticos da cultura de determinada região, geralmente produzidos à margem do design oficial. [...] Assim, o design com influência do vernacular é aquele que provém diretamente das tradições culturais de cada povo, que são passadas adiante, de geração em geração, de maneira informal.[...] O regional configura especificamente uma tradição vinculada a um território que possui forte identidade cultural.”

Já o professor e designer Flávio Cauduro ressalta que “muitas das imagens pós-modernas resgatam formas e processos populares (nativos, vernaculares) de representação que são de conhecimento geral, mas considerados de baixo valor estético.”

Mas, se olharmos para a produção atual do design, podemos observar produtos de mercado com design de superfície de alto valor estético, cuja inspiração vem dos costumes regionais, do artesanato popular ou das festas religiosas, como por exemplo, as estampas para porcelana desenvolvidas por Marcelo Rosembaun para a Oxford.

Sendo assim, proponho uma reflexão a respeito de uma possível identidade brasileira que possa servir de referência e inspiração ao design contemporâneo.

Professora de Design, Bia Ardinghi é formada em arquitetura, especialista em Design Gráfico, e atualmente desenvolve seu mestrado em Design na FAU-USP. Possui escritório próprio de criação em design.

Referências

CONSOLO, Cecilia (org). Anatomia do Design. Uma análise do design gráfico brasileiro. São Paulo: Ed. Blucher, 2009.

RAHDE, M. B. F.; CAUDURO, F. V; Algumas características das imagens contemporâneas. Revista FronteirasEstudos midiáticos, n. 3, p. 195-205, Setembro/Dezembro 2005

SCOREL, Ana Luiza. O Efeito multiplicador do design. 1º ed. São Paulo: Senac, 2000.